Dores menstruais afastam 4 em cada 10 alunas das salas de aula

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Pesquisa reforça que naturalizar esse sofrimento pode mascarar doenças como a endometriose. Veja o que dizem os especialistas

Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) em 2023 aponta que a cólica faz parte da vida de mais de 75% das brasileiras. Essa dor é causada pela contração do útero para expulsar o sangue da menstruação e pode ser vivenciada de forma leve a moderada, geralmente melhorando com analgésicos simples e sem interferir nas atividades diárias. Se a cólica menstrual foge desse padrão, é preciso ficar atenta.

A cólica menstrual intensa ainda é frequentemente tratada de forma equivocada como um incômodo “normal” e inevitável da juventude. No entanto, uma investigação inédita realizada pelo Instituto Alana, em parceria com o Instituto Equidade.info, revela que essa dor invisibilizada é a principal causa do afastamento escolar no Brasil, motivando 57,7% das faltas mensais de meninas em período menstrual.

O estudo mostrou que 36,4% das estudantes dos ensinos fundamental e médio — cerca de quatro em cada dez — faltam às aulas mensalmente devido a sintomas menstruais. O levantamento aponta que 64% das jovens sofrem com cólicas de intensidade forte ou moderada, impactando diretamente o rendimento e a permanência estudantil.

A sondagem, realizada com 2.551 estudantes, professores e gestores escolares de redes públicas e privadas de todo o país, evidencia que a cólica é o principal sintoma impeditivo para a frequência escolar (citado por 57,7% das entrevistadas), seguida por cansaço crônico (30,1%), dores de cabeça (28%) e o medo de sofrer constrangimentos por vazamentos (19,3%). Os sintomas geram um absenteísmo médio de dois dias letivos por mês.

Primeiras menstruações mais precoces aumentam intensidade da dor

Os dados estatísticos do levantamento nacional traçam um panorama preocupante sobre o desenvolvimento biológico das adolescentes. No Brasil, a menarca (primeira menstruação) ocorre de forma cada vez mais precoce: 65,2% das meninas ouvidas menstruaram até os 11 anos, e 36,5% até os 10 anos.

O estudo estabeleceu uma conexão médica direta entre a menarca precoce e o desenvolvimento de quadros álgicos graves. Entre as estudantes que tiveram o primeiro fluxo aos 10 anos, 43% relatam sofrer com cólicas fortes e incapacitantes na rotina atual. O índice cai progressivamente para 27% entre quem menstruou aos 11 ou 12 anos, e estabiliza em torno de um quarto das entrevistadas que vivenciaram a menarca a partir dos 13 anos.

Para muitas meninas, menstruar não significa apenas lidar com uma nova fase do corpo, mas também com dores que podem afetar a frequência às aulas, a concentração, a prática de esportes e a convivência com colegas”, aponta o relatório técnico do Instituto Alana.

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O viés racial e a invisibilidade da dor em meninas negras

O estudo coloca em xeque a universalidade do atendimento público ao revelar uma grave assimetria racial. Embora as alunas brancas reportem dores mais intensas em termos de percepção individual (37,5% contra 25,9% das negras), são as meninas negras que mais faltam às aulas devido ao ciclo: 14,5% delas perdem de dois a cinco dias de aula por mês, enquanto o índice entre as alunas brancas cai para 9,6%.

De acordo com Sofia Reinach, líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, a baixa percepção de dor intensa entre as jovens negras reflete um processo cultural de naturalização do sofrimento.

As meninas negras nomeiam menos a sua dor como forte. Elas têm um limiar de dor socialmente maior e reconhecem menos o sintoma como incapacitante. Na prática, porém, o impacto físico as retira da escola de forma muito mais severa”, explica a especialista, que defende a urgência de os profissionais de saúde e educação superarem o viés histórico de que corpos negros são mais resilientes à dor. 

Menarca precoce e o papel das trabalhadoras da educação

Outro dado alarmante da pesquisa é o avanço da menarca precoce no Brasil: 65,2% das entrevistadas tiveram a primeira menstruação até os 11 anos, e 36,5% até os 10 anos. O estudo estabeleceu uma relação direta entre a menarca precoce e a intensidade do sofrimento na adolescência, revelando que 43% das meninas que menstruaram aos 10 anos enfrentam cólicas graves na rotina atual.

A crise de ausências afeta duplamente o ecossistema de ensino, alcançando também as trabalhadoras da educação. Cerca de 15,8% das professoras e 28,3% das gestoras escolares sofrem com cólicas fortes, sendo que uma em cada dez docentes precisou faltar ao trabalho ao menos uma vez no último ano pelo mesmo motivo.

A pesquisa aponta que o índice de faltas menor entre as adultas se deve à responsabilidade profissional e ao medo de demissões ou cortes, forçando as mulheres a trabalharem sob forte sofrimento físico.

Falta de absorventes faz com que 1 em cada 4 meninas deixe de frequentar a escola

Segundo o relatório “Pobreza Menstrual no Brasil: Desigualdade e Violações de Direitos”, publicado pelo Unicef, mais de 4 milhões de estudantes brasileiras frequentam escolas sem infraestrutura adequada para realizar a higiene pessoal durante o período menstrual — ou seja, encontram banheiros sem papel higiênico ou sabonete para lavar as mãos.

Além disso, uma em cada quatro meninas falta à escola enquanto está menstruada pela falta dessa infraestrutura básica, ou mesmo por não ter acesso a absorventes, segundo dados da ONU. E isso pode trazer prejuízos no processo de aprendizagem, visto que as faltas podem somar até 45 dias de aulas no ano letivo, segundo o levantamento Impacto da Pobreza Menstrual no Brasil, encomendado por uma marca de absorventes e feito pela consultoria Toluna.

Falta de infraestrutura regional e o silêncio dos meninos

pobreza menstrual em sua vertente estrutural atinge com maior força as regiões Norte e Centro-Oeste do país. A falta de banheiros adequados e a escassez de sabão e absorventes nas escolas foram apontadas como causas diretas de faltas por 18,9% das alunas do Norte e expressivos 30,2% no Centro-Oeste.

Para além das falhas estruturais, o tabu social permanece alimentado pelo desconhecimento do público masculino. O levantamento indica que 36,8% dos estudantes homens afirmam não pensar sobre menstruação, e apenas 23,7% reconhecem que o ciclo pode atrapalhar o rendimento escolar ou a prática de esportes das colegas.

O Instituto Alana defende que os meninos sejam inseridos ativamente nos debates curriculares diários para que se tornem redes de apoio, e não agentes de constrangimento.

Os riscos da cultura de silenciamento e normalização do sofrimento

Especialistas alertam que a insistência em tratar as dores menstruais como “um incômodo normal do corpo feminino” atrasa significativamente o diagnóstico de enfermidades graves, como a endometriose, uma doença inflamatória crônica em que um tecido semelhante ao endométrio (que reveste a parede interna do útero) cresce fora da cavidade uterina.

A condição passa a atingir órgãos vizinhos como ovários, trompas, intestino e bexiga, provocando dores agudas incapacitantes, fadiga extrema e, se não tratada, riscos de infertilidade na vida adulta. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo. O diagnóstico correto na atenção primária do SUS chega a demorar até 12 anos. 

Saúde

A normalização do sofrimento físico faz com que a menina aprenda que sofrer é normal, cessando as queixas e interrompendo as investigações clínicas por parte dos adultos”, alerta Sofia Reinach.

Luiza Cromack, professora de medicina da Universidade Veiga de Almeida (UVA), reforça que a dor que impede a execução de atividades cotidianas básicas serve como o primeiro e principal indicativo de que o organismo necessita de investigação clínica.

Quanto mais cedo a adolescente entender o que é esperado e o que não é no comportamento do seu próprio corpo, maiores são as chances de identificar a doença no início e evitar complicações futuras”, conclui a docente da UVA.

5  sinais de alerta para buscar ajuda especializada

A disseminação de informação qualificada nas salas de aula é apontada como a principal ferramenta de transformação social. Para romper com o ciclo de desinformação,  a especialista estruturou as seguintes diretrizes para auxiliar mães, responsáveis e as próprias jovens a diferenciarem o desconforto aceitável de um sinal clínico patológico:

  1. Intensidade e resistência a fármacos: Cólicas leves a moderadas respondem a manejos rotineiros. Dores agudas que não cedem ou não apresentam melhora com o uso de analgésicos simples exigem atenção médica imediata.
  2. Sintomas multissistêmicos associados: Sentir dores agudas ao evacuar, ao urinar ou durante a prática de exercícios físicos comuns no período menstrual indica que a inflamação pode estar afetando outros órgãos da pelve.
  3. Comprometimento severo da rotina: Perder dias letivos, apresentar dificuldades severas de concentração nas aulas ou afastar-se do convívio social devido ao sofrimento físico é um sinal clássico de inadequação do fluxo.
  4. Histórico clínico familiar: A presença de diagnósticos confirmados de endometriose em mães, irmãs ou tias eleva estatisticamente o risco de desenvolvimento da condição e deve ser informada na consulta.
  5. Busca por atendimento na atenção primária: Profissionais das Unidades Básicas de Saúde (UBS) possuem capacitação para realizar a triagem inicial, prescrever terapias clínicas de controle e realizar o encaminhamento correto para ginecologistas especializados. 

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