Boletim Coppolla – Eleições 2026 | 16 de setembro, quarta-feira
CRÉDITOS: boletimcoppolla.com.br
| Faltam 18 dias para o 1º turno “O poder judiciário existe para tranquilizar o povo. E nós geramos intranquilidade. Nós mesmos, neste Supremo, inebriamos o sentimento de justiça.” Ministra Cármen Lúcia, durante a sessão de hoje ![]() Foram mais de cinco horas de sessão, um placar que virou de 4 a 4 para 4 a 3 na base de um pedido de vista – claramente protelatório, e uma defesa de 44 páginas protocolada na madrugada que, sozinha, já daria uma edição inteira.Cruzamos relatório da PF, ofícios oficiais e a transcrição da sessão para separar o fato do teatro. O resultado é denso. Vale a leitura com calma – se é que é possível manter a calma… ![]() E assim, o Supremo passou o dia decidindo como não decidir ![]() 10h55, Edson Fachin abre a sessão com um discurso institucional: “Não podemos entregar às gerações futuras um STF menor do que recebemos”, disse, defendendo que a Presidência “não pode e não pôde escolher o caminho mais fácil”.11h33, Kássio Nunes Marques se declara suspeito, depois de negar publicamente que o filho tenha recebido pagamentos do Banco Master. Dias Toffoli o segue, invocando “foro íntimo”. Restam nove ministros aptos a votar. A pauta do dia não era decidir se Moraes poderia ser investigado. Era decidir como deveria ser a decisão para investigá-lo: o decano Gilmar Mendes propôs juntar o processo dele à acusação contra André Mendonça, o ministro que tornou pública a apuração da PF. Zanin e Dino acompanharam essa tese. Do outro lado, Fachin, Mendonça, Fux e Cármen Lúcia defenderam manter os processos separados.A sessão descarrilou em embates diretos ao longo da tarde. Às 18h24, o placar fecha 4 a 4. Oito minutos depois, Dino pede vista e retira o próprio voto. O placar oficial passa a 4 a 3 pela separação dos processos.Nada sobre investigar Moraes foi decidido hoje. O pedido de vista trava o mérito por até 90 dias – somado ao recesso forense, potencialmente só teremos algum encaminhamento no ano que vem, em algum outro contexto político – pós-eleição. Uma nova sessão, agora para julgar a conduta do próprio Mendonça, já está marcada para 23 de setembro. ![]() ![]() Cinco pontos de destaque A própria defesa de Moraes. Em petição de 44 páginas protocolada na madrugada de hoje, o ministro classificou o relatório da Polícia Federal como “nulo e imprestável”, alegando quebra na cadeia de custódia, e afirmou que o documento teria recebido “auxílio de órgão externo, provavelmente órgão estrangeiro”, o que configuraria, nas palavras dele, “clara tentativa de interferência externa nas eleições brasileiras de 2026”. Vale registrar: Moraes não identificou qual país, governo ou instituição estaria envolvido, e embora mencione as sanções dos Estados Unidos com base na Lei Magnitsky no mesmo documento, não atribui a interferência diretamente ao governo americano. Uma tremenda ‘smoke screen’, como dizem os americanos… ![]() As mensagens que se autodestroem. Um relatório da Polícia Federal reconstruiu como Daniel Vorcaro se comunicava com um contato salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”: escrevia o texto no bloco de notas do iPhone, fotografava a própria tela e enviava a imagem pelo WhatsApp em modo de visualização única, em 52 ocasiões identificadas entre outubro e novembro de 2025. A perícia recuperou os rastros da operação mesmo assim. Em março, a assessoria de Moraes havia negado, em nota oficial, a existência de qualquer mensagem endereçada a ele. ![]() O WhatsApp que vazou entre dois ministros. Mensagens atribuídas a Gilmar Mendes e endereçadas a Kássio Nunes Marques vieram a público antes da sessão: “assumam que estão ferrados e saiam dos processos, abram as contas”, teria escrito o decano. Segundo a reportagem, Kássio reagiu pedindo respeito e bloqueou o colega no aplicativo. ![]() O contraste entre quem fugiu e quem ficou. Kássio teve a chance de votar e formar maioria pela decisão lógica de separar os processos e não aderir à falsa equivalência proposta pela tropa de choque da ‘suprema facção’. Preferiu se declarar suspeito, por um motivo questionável: como presidente do TSE, não queria contaminar o tribunal eleitoral com o caso. Cármen Lúcia permaneceu, votou, e assumiu publicamente o desconforto de integrar uma Corte que, em suas palavras, “gerou intranquilidade” no país. Logo ela, que ‘excepcionalmente’ aderiu à censura estatal e toda sorte de abuso para reconduzir Lula à cena do crime e manter seus oponentes calados (ou presos). A repercussão internacional. Reuters, BBC, Washington Post, El País e La Nación cobriram o julgamento. O Washington Post perfilou Moraes como o juiz que, tendo conduzido a prisão de Bolsonaro, hoje enfrenta pressão por vínculos com um banqueiro sob investigação. ![]() O Supremo é ‘incompetente’ para julgar seus SupremosA pergunta que ninguém no plenário formulou em voz alta: é justo e republicano que o Supremo julgue a si mesmo? Vamos aos fatos. Em 2015, uma troca de mensagens inofensiva (às Partes) entre procurador e juiz bastou como pretexto para o Supremo declarar comprometida a imparcialidade de toda a Operação Lava Jato. Não foi preciso provar má-fé. Bastou a aparência de proximidade, para que fosse encampada a tese de ‘imparcialidade objetiva’. Se o precedente fosse aplicado com o mesmo rigor hoje, a decisão sequer passaria pelo exame do Supremo…Um modus operandi está se consolidando. Há sete anos e meio, quando Moraes passou a conduzir o famigerado Inquérito das Fake News, uma parte considerável de quem apontou falhas em sua conduta acabou, em algum momento, sob investigação do próprio criticado. Desta vez não foi diferente: foi o próprio Moraes quem peticionou pela apuração contra André Mendonça, justamente o ministro que esbarrou e tropeçou em indícios contra Moraes ao investigar o enrolado banqueiro Daniel Vorcaro. O método salta aos olhos.Quando a votação de hoje parecia caminhar para direção indesejada, com a possibilidade de exercício do ‘voto de qualidade’ (desempate) do presidente da Corte, o mecanismo de contenção foi acionado na última hora. O tal pedido de vista, solicitado pelo magistrado mais convicto de todo tribunal – que falou de forma ‘hemorrágica’ durante toda a sessão. Assim adiou-se um resultado desfavorável à tropa de choque da suprema blindagem. Mas antes mesmo do pedido formal, outras estratégias protelatórias já haviam sido lançadas: antecipando placar desfavorável – e fazendo o diabo para tirar o foco do evento para longe das condutas de Moraes – Flávio Dino passou a interromper e apartar colegas reiteradamente, com citações que foram de Fábio Porchat a Aristóteles. A literatura do processo legislativo tem nome para esse tipo de conduta: ‘filibuster’, a tática de não focar na persuasão, mas apenas esgotar o relógio e a paciência alheias – e como o “judiciário se tornou uma força política na vida brasileira”, nada mais natural que Dino, um político disfarçado pela toga, tenha lançado mão do estratagema.Fato é que os efeitos da sessão plenária de hoje já reorganizaram o tabuleiro político nacional. No Congresso, parte da oposição usa o episódio para pressionar por mudanças no rito de impeachment de ministros. No Planalto, o entorno do presidente Lula tem, segundo reportagens recentes, buscado distância pública da figura de Moraes. Em Washington, sanções contra o ministro, suspensas meses atrás, voltam a ser discutidas à luz do desfecho deste julgamento. Uma Corte concebida para estar acima da disputa eleitoral tornou-se, ela mesma, uma variável importante do jogo.O Supremo tem hoje uma dificuldade estrutural para julgar a si mesmo. Está demonstrado que não há distância suficiente entre julgador e parte, quando ambos vestem a mesma toga.A menos de um mês do primeiro turno, o Brasil deveria estar debatendo o destino da economia, da segurança pública, e tantas outras políticas que nascerão das urnas em outubro. Em vez disso, volta sua energia e atenção para discutir – e lamentar – os desmandos e despudores da mais alta Corte do país. ![]() Dia 23 e o termômetro chamado Cármen Lúcia23 de setembro: nova sessão, agora sobre a conduta (injustamente questionada) de André Mendonça, que não vota dessa vez, ao contrário de Alexandre de Moraes, que não se sente impedido em nenhuma hipótese, nunca. A aritmética muda de novo. O alinhamento de Cármen Lúcia hoje, ao lado de Fachin e Mendonça, é o melhor sinal disponível sobre como ela deve se posicionar.Em paralelo, observe a Casa Branca: o desfecho deste julgamento é um dos fatores monitorados antes de eventual retomada das sanções contra ministros da Corte brasileira. Que vergonha. |









