Terapias, consultas, escola, adaptações, deslocamentos… Estes são alguns dos muitos desafios enfrentados por milhares de mães atípicas, todos os dias.
A jornalista Bruna Moreira conhece bem essa realidade. Ela é mãe de Rauan, de 11 anos, e Calleb, de 7, que tem paralisia cerebral. A família mora em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio e, para dar conta de todas as tarefas do dia, acordam antes dos primeiros raios de sol: por volta de 4h40.
“O Calleb faz terapias duas vezes por semana em municípios diferentes de onde moramos. Para uma delas, levamos em média uma hora de deslocamento. Já para a outra, que acontece em um município ainda mais distante, chegamos a passar cerca de duas horas no ônibus. Geralmente, após as terapias, já almoçamos pelo caminho para conseguir chegar a tempo da escola, onde ele estuda até às 17h. Além das terapias, existe toda a continuidade do cuidado dentro de casa. Existem as intercorrências, as noites de crise, as madrugadas acordadas e, muitas vezes, as idas para a emergência. É uma vida em constante estado de atenção e cuidado”, explica Bruna.
Com rotina semelhante, a estudante de psicologia Dayane Valêncio se desdobra para cuidar de Bernardo, de 9 anos. Ele é autista nível 2 de suporte. O menino recebeu o diagnóstico muito cedo. Com cerca de 1 ano e 3 meses, ele parou de se alimentar. Até hoje, possui uma seletividade alimentar severa, além de deficiência intelectual.
“O Bernardo faz terapias de segunda a sexta-feira. Eu levo para os atendimentos, sigo para o trabalho e tento conciliar tudo da melhor forma possível. Além disso, ele também possui distúrbio do sono, então o cansaço físico e emocional acaba sendo constante. A realidade da mãe atípica é uma luta silenciosa que muitas pessoas não enxergam”, afirma.
Cuidando de quem cuida
Pensando em mulheres como a Bruna e a Dayane, foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) a lei que garante a mães atípicas o direito a documento de identificação no Rio, com o objetivo de reconhecer e valorizar a condição de mães que exercem o papel de cuidadoras principais de filhos com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras.
As mães atípicas poderão solicitar o documento, que servirá para garantir o reconhecimento oficial da função de cuidador permanente, além de facilitar o acesso a serviços públicos, políticas sociais e benefícios específicos. Ele terá validade de cinco anos e assegurará prioridade no atendimento nas áreas de saúde, educação e assistência social. Também permitirá a inclusão em programas de apoio psicológico, capacitação profissional e renda emergencial, além de servir como comprovante de condição especial em processos administrativos.
Para o autor da medida, deputado Fred Pacheco (PL), a carteira será mais uma ferramenta de inclusão e respeito. “Esse documento representa mais do que um reconhecimento formal: ele é um gesto de respeito e acolhimento às mães atípicas, que enfrentam diariamente uma rotina de dedicação integral, muitas vezes invisível aos olhos do poder público. Nosso objetivo é garantir dignidade, prioridade no atendimento e facilitar o acesso dessas mulheres às políticas públicas do Estado. Cuidar de quem cuida também é uma obrigação do Parlamento”, diz.
Mães atípicas elogiam medida
Para Bruna, essa identificação representa um reconhecimento para mães que vivem diariamente uma jornada intensa de cuidado e, muitas vezes, enfrentam sozinhas desafios relacionados à saúde, educação, transporte, burocracias e acesso a direitos.
“Além da prioridade em atendimentos e da facilitação no acesso a serviços e políticas públicas, essa carteirinha também representa visibilidade para uma realidade que durante muito tempo foi ignorada”, reforça Bruna.
Dayane também acredita que o documento será uma forma de valorização. Ela pontua que muitas mães atípicas acabam invisibilizadas dentro da sociedade, mesmo dedicando praticamente toda a vida ao cuidado dos filhos.
“Esse documento pode ajudar a facilitar atendimentos, acessos e comprovações em situações do dia a dia, além de trazer mais dignidade, acolhimento e respeito para essas mães. A lei também representa um avanço importante porque reconhece oficialmente a condição da mãe atípica como cuidadora principal”, comenta.
Como irá funcionar
A emissão será realizada pelo Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro (Detran-RJ), mediante requerimento e apresentação de documento pessoal com foto, comprovante de residência, laudo médico da criança ou pessoa assistida e declaração de responsabilidade sobre os cuidados prestados.