Economista aponta riscos para o Açu

Devido a crise financeira mundial e mediante a conjuntura da economia globalizada, até mesmo investimentos voltados para produção de commodities, como minério de ferro e petróleo, estão com freio de mão puxado em vários países. É que o cenário não oferece segurança financeira para os investidores, que assistem preocupados a oscilação brusca do valor das empresas nas bolsas de valores, como vem ocorrendo com as vistosas empresas do Brasil, a exemplo de algumas do grupo EBX, como a LLX (empresa de logística) e OGX (empresa do setor energético). Diante deste quadro, o economista, professor universitário e mestre em Planejamento Regional, Alexandre Delvaux faz uma avaliação contextual sobre os riscos inerentes aos investimentos do Porto do Açu, que o megaempresário Eike Batista implanta no litoral Norte do Estado do Rio de Janeiro, precisamente no 5º distrito do município de São João da Barra. Mas nesta entrevista, Delvaux aponta alternativa para viabilizar o porto, caso a retroárea fique sem empresas até passar a crise. Ele alerta à sociedade civil para instar o governo federal a alterar o cronograma de obras da EF 354 que é a Ferrovia Transcontinental, que ligará Campos/Açu/Vitória-ES ao Centro Oeste do Brasil. É que no cronograma de obras, consta que serão iniciadas no primeiro trecho entre Boa Esperança, no Acre, até Uruaçu, em Goiás. Delvaux defende que o governo priorize o trecho entre Uruaçu, passando por Belo Horizonte, ligando Campos/Açu. “A inversão criará o corredor de exportação de grãos, e viabilizará o Porto do Açu, porque mesmo que caiam as commodities, teremos a exportação da grande produção de grãos, com foco na soja e milho para América do Norte e Europa”, disse.

O Diário – Diante da crise financeira mundial, investidores internacionais em diversos países, inclusive no Brasil, diante das incertezas, estão acionando o freio de mão. Empresas parceiras em vários empreendimentos retiram suas participações e grandes projetos são paralisados por causa das projeções negativas. Qual avaliação o senhor faz sobre riscos dos empreendimentos anunciados para o Porto do Açu por causa da crise?
Alexandre Delvaux – Como economista, diante do cenário do mundo atual, sou levado a um sentimento pessimista em relação ao eldorado tão propalado de forma midiática, em torno do Porto do Açu nos últimos três anos. Basta observar: atualmente o noticiário mostra variações negativas das ações das empresas de Eike Batista nas bolsas e também os negócios, que variavelmente impõe perdas, como ocorre na OGX.

O Diário – Mas o porto é estratégico para o comércio internacional, e mediante as oportunidades que o Brasil oferece, com tendência no crescimento das exportações, é evidente o interesse de grupos empreendedores pela retroárea do Porto do Açu. Mesmo assim o senhor acha que há risco de algum dos projetos importantes já definidos para retroárea minguarem?
Delvaux – Quanto ao risco de algum projeto não se tornar realidade,  lamento  afirmar que  sim. Afinal, muitos investidores, como os chineses, que seriam um dos principais parceiros no complexo industrial, com a construção da siderúrgica Whuan, optaram por não correr riscos e recolheram o capital.

O Diário – Que projeção o senhor faz para a crise em relação ao cenário mundial? Por quanto tempo o senhor acha que ela vai perdurar?
Delvaux – Infelizmente, a economia mundial ficará em situação cada vez mais grave. Observadores do próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) já anunciaram expectativa de duração de pelo menos seis anos desta crise. Neste cenário, a disputa comercial entre os países vai aumentar o protecionismo e reduzir o comércio entre as nações.

O Diário – Na expectativa da LLX, o carro chefe da movimentação portuária no Porto do Açu certamente deverá ser alavancada por duas commodities, que são o minério (que chegará pelo mineroduto da Anglo American) e o petróleo (da OGX de Eike, da Petrobras e de outras petrolíferas). O senhor vislumbra algum risco nesta pers-pectiva, mediante a possibilidade de uma crise tão duradoura?
Delvaux – Numa crise prolongada por cinco ou seis anos, imperando o protecionismo, ocorre o efeito cascata que atinge fatalmente a indústria, que afeta as commodities, como petróleo e minério. Na crise acentuada, as indústrias reduzem a produção e algumas, inclusive as que produzem aço também param. Isso significa que os portos poderão ser atingidos, porque as exportações de commodities afetadas param frotas de no mundo.

O Diário – Existe algo em especial no âmbito regional que de alguma forma contribui para esse seu pessimismo em relação ao megaempreendimento?
Delvaux – Tem uma coisa que me incomoda sim sobre os informes negativos em relação as notícias que revelam desempenho negativo das principais empresas do grupo EBX: é preocupante o silêncio dos grandes grupos. Em função da economia global com taxas muito baixas, outros empreendedores já formalizaram negócios no gongo, ou seja, retiraram suas participações nos empreendimentos.

O Diário – Mas o empreendimento âncora é o Porto da LLX, com as obras bastantes adiantadas, e programado para operar a partir de meados de 2013. Também o estaleiro da OSX, que já tem 11 contratos para produção de navios, está com as obras a todo vapor, com prioridade na construção dos diques de abrigo para acesso ao estaleiro, um projeto de 400 mil Euros, recentemente assumido pela espanhola Acciona, grande empresa que detém avançadas tecnologias da indústria naval. Enquanto a crise financeira passa, o porto e o estaleiro não serão viáveis com as operações do pré-sal?
Delvaux – A salvação para o Eike Batista neste cenário de crise, com fuga do capital dos investidores, é a permanência do interesse de grandes empresas pela Ferrovia Transcontinental. A ligação ferroviária em bitola larga entre o Porto do Açu e o Centro Oeste do Brasil formará um Corredor de Exportação que mudará os paradigmas da logística do Estado do Rio de Janeiro, do Brasil e influenciará o comércio do Brasil com a Europa, que receberá por exemplo, grãos do Brasil, com ênfase na exportação de soja e milho.

O Diário – Não existe porto de grande porte sem ferrovia. O governo federal lançou recentemente o Plano Nacional de Logística de Transportes, que prevê a liberação de recursos para a construção e recuperação de 10 mil quilômetros de estradas de ferro. O trecho de Campos está inserido, mas a licitação para os primeiros trechos está prevista para fevereiro ainda. O senhor não acha que será demasiadamente demorado a execução deste projeto na ligação do Açu aos grandes centros por ferrovia?
Delvaux – Devo alertar e ao mesmo tempo sugerir as entidades da sociedade civil que tomem posição junto ao governo federal porque a Valec (estatal responsável pelos projetos do programa de logística) somente apresenta para primeira fase obras no trecho da EF 354 entre Uruaçu (Acre) e Boqueirão da Esperança (Goiás). É preciso inverter a prioridade e iniciar no trecho entre Goiás e Campos/Vitória, com conexão no Açu, através do corredor Logístico.

Créditos: Jornal O Diário

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